segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma idéia que veio de longe

Júlio Seabra Inglez de Souza foi um engenheiro agrônomo de célebre importância na Vitivinicultura brasileira. Iniciou cruzamentos controlados com variedades de videira no IAC em 1938 e dedicou toda a sua vida ao desenvolvimento da vitivinicultura paulista e nacional. Escreveu os famosos livros: “Podas das plantas frutíferas”, “Uvas Para o Brasil”, entre tantos outros não tão notórios ao público, mas de fundamental importância técnica e histórica.
Seu filho, Sergio Inglez de Souza embora tenha escolhido outra engenharia, a mecânica, seguiu a paixão do pai pela vitivinicultura, sendo há alguns anos um dos enófilos mais respeitados do país. Sérgio conheceu boa parte do mundo vitivinícola e sempre relatou em artigos para revistas e jornais, livros e mais recentemente na internet suas experiências.
Julio Seabra (o pai) embora fosse muito crítico com os deslizes dos produtores nacionais não se deslumbrava com a grandeza e a experiência das grandes regiões produtoras, sempre acreditando na sagacidade do viticultur brazuca. Ponto positivo que o filho herdou.
Em um de seus vários textos sobre vinhos nacionais, Sérgio (o filho), citou o potencial de ocupar um nicho no mercado de bons vinhos que os vinhos Goethe da região de Urussanga tinham. Sérgio descreveu as boas características do Goethe, inclusive comparando-o ao famoso Frascati.
Uma das pessoas que leu esse parágrafo em meio a um grande artigo no ano de 2004 foi o engenheiro agrônomo Rogério Ern. Este, também entusiasta da vitivinicultura, na época já cultivava vinhedos biodinâmicos em Rio do Sul e era consultor do Sebrae em alguns projetos na área agrícola.
Rogério veio para Urussanga conhecer o vinho elogiado pelo grande enófilo na revista Vinho Magazine e trouxe a idéia de fazer um projeto de Indicação Geográfica (IG) para o vinho da uva Goethe.
Então produtores, professores, pesquisadores, extensionistas e autoridades se reuniram, formaram a Progoethe e aprovaram um grande e trabalhoso projeto para implantar a IG. Envolveram-se neste projeto Sebrae, UFSC, Epagri, Fapesc, Fapeu, prefeituras municipais e logicamente os produtores, atores principais desta trama.
Com a publicação do registro da IG que aconteceu essa semana, a idéia que trata este artigo está próxima de se tornar uma realidade, então nesse caso o santo de casa faz milagre, começou de fora pra dentro, mas está fazendo!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

POR QUE GOETHE?

Que Urussanga é a sede de uma Associação chamada Progoethe todo mundo já sabe. Que a Progoethe reúne os produtores de vinho da região com o objetivo de promover e divulgar o vinho Goethe também não é novidade. Mas uma coisa que nem todos entenderam ainda é por que fazer isso tudo com a uva Goethe?
Contra a Goethe temos o fato de ela ser uma uva de baixa produtividade, muito sensível a chuvas na colheita, havendo freqüentes perdas de produtividade; além de ser uma uva difícil de vinificar; pois sendo mucilaginosa e de casca mole, é difícil extrair seu mosto, implicando em uma maceração pelicular que precisa ser controlada com muita atenção.
Partindo para o lado comercial, a Goethe apresenta mais algumas desvantagens. A primeira é ser desconhecida do grande público consumidor, não é um nome comum como Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay, et cetera e tal. Além disso a Goethe é uma uva híbrida, oriunda de um cruzamento entre variedades de origem européia e americana. No mundo do vinho, existe uma classe enorme de “formadores de opinião” que sem conhecer um vinho são capazes de difamá-lo ao extremo somente por ter em sua composição genética a origem americana.
Mas e aí, por que a Goethe então?
Bom, a Goethe foi introduzida na região de Urussanga no início da colonização, e assim como outras variedades se adaptou razoavelmente bem as condições locais. Porém quando foi colhida e vinificada gerou o primeiro caso de amor a primeira taça da vitivinicultura brasileira. O conjunto aromático do vinho Goethe fez os colonizadores da região lembrarem seus vinhos do norte da Itália.
O que eles não sabiam é que a paixão pelo aroma da Goethe era hereditária e viria a atravessar gerações até os dias de hoje.
Concluindo, as dificuldades de produção são superadas pelo resultado (não dizem que os fins justificam os meios?). Os aromas florais, frutados e de mel associados à refrescância no paladar fazem valer a pena cada dificuldade no vinhedo e na vinícola.
Quanto aos pontos negativos para a área de marketing, quando os produtores de Urussanga uniram-se em torno da Goethe, eles resolveram honrar sua história e trabalhar para aprimorar a fonte maior de seu amor pelo vinho, que é a qualidade do Goethe.
Seria mais lucrativo camuflar o Goethe e pegar a carona dos moscatéis, ou abandoná-lo e investir em carmenere, malbec, viognier ou qualquer uma dessas variedades que estão na moda, talvez nem inovar, ficar no velho Cabernet Sauvignon que todo mundo quer comprar.
Acontece que produzir vinho Goethe é mais do que idolatrar o mercado, é algo além de seguir a tendência, é lucrar menos, mas estar moralmente acima dos que alimentam enófilos com nomes tarimbados nem sempre legítimos.
Enfim, o vinho Goethe é um símbolo regional que já devia ter sido tombado como patrimônio histórico; mas para o mundo do vinho é um nome diferente, é um vinho diferente, é uma nova experiência! Você está preparado para isso?

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Foi publicado registro da IG dos Vales da Uva Goethe


Pelo visto falta pouco.
A Revista da Propriedade Industrial, veículo oficial de comunicação do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) publicou no número 2121, do dia 30 de agosto de 2011 o pedido de registro da Indicação Geográfica dos Vales da Uva Goethe.
Indicações Geográficas são identificações que levam alguns produtos específicos. Estes produtos devem ser originários de determinado local, cujas condições geográficas sejam responsáveis por sua reputação, qualidade e/ou características.
A primeira IG do mundo foi o Vinho Do Porto, que teve a região de produção demarcada a partir de 1756. As IG’s se espalharam pela Europa e tomaram o mundo todo, reconhecendo os mais diversos produtos mundo afora.
No Brasil a política de IG’s é recente, o primeiro pedido de IG realizado no Brasil foi em 1997, sendo que  o primeiro produto brasileiro a ter uma IG foi o vinho do Vale dos Vinhedos, distrito de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha que teve sua IG registrada em 2002.
A Progoethe Vem trabalhando desde 2005 tentar obter uma IG para os Vales da Uva Goethe, que contempla a região vitícola de Urussanga, Pedras Grandes e alguns municípios vizinhos.
Para obter uma IG é preciso realizar levantamento histórico, pedológico (de solos), hidrográfico, climático da região de produção e associá-lo as características do produto, que no caso do vinho Goethe significa estudar a ecofisiologia da planta e a caracterização do vinho elaborado. Esses trabalhos técnicos foram realizados pela UFSC e Epagri; sendo que no ano passado, após a junção de todos esses dados em um dossiê onde justificou-se legalmente os motivos da Progoethe em pleitear o registro de uma IG para os Vales da Uva Goethe.
Esse dossiê deu entrada no INPI em setembro de 2010 e após ser avaliado foi publicado oficialmente na última terça. Isto não significa que os Vales da Uva Goethe já obtiveram a IG, mas que o INPI já aprovou o processo e agora ele está em uma espécie de “consulta pública”, ou seja, muito mais perto da obtenção que em qualquer outro momento.
É importante salientar que a IG não é patrimônio da progoethe, mas de todos os atores do território demarcado, ou seja, é um patrimônio da sociedade, da comunidade e está a disposição de qualquer um que venha a elaborar vinho Goethe dentro do território demarcado.
Porém, para o vinho levar o selo da IG ele deve ser elaborado dentro de algumas regras, que orientam desde a produção de uva até a rotulagem do produto. Estas regras devem ser seguidas para que o Vinho Goethe tenha um padrão de qualidade e mantenha sua tipicidade, motivo pelo qual é merecedor da IG.


Matéria completa em http://panorama.sc/panoramasc/929/  página 16

sábado, 27 de agosto de 2011

Pensamentos maquiavélicos em uma taça de vinho branco


Esclarecimentos: Só citamos Maquiavel da metade em diante do texto, a primeira metade é a introdução da “história”. O termo uma taça do título é eufemismo. 


Nessas idas e vindas ao redor do vinho Goethe, freqüentemente nos deparemos frente a algumas garrafas. Pois bem, é na hora de consumir o vinho sem finalidades profissionais que as idéias fluem de maneira mais efusiva.
Durante uma sessão de “degustação informal livre”, também conhecida como leve bebedeira, discutíamos o conjunto aromático de alguns Goethes novos, da safra 2011. Mesmo Castigados pela chuva no final de janeiro os vinhos conseguiram expressar um bom nível de aroma frutado, em prejuízo dos florais, sendo que recém engarrafados começam a despertar as notas de mel.
Um aroma tão agradável, em um vinho que é refrescante sem prejuízo ao corpo (corpo do vinho no caso); com certeza seria um sucesso se a variedade Goethe fosse uma Vitis vinifera,
Mas como ela é uma variedade híbrida, com carga genética de americanas ela não pode gerar vinhos de qualidade. Pelo menos é o que dizem enófilos e vinhateiros teóricos de plantão.
Esses que agridem a Goethe por sua origem, são capazes de dizer que é impossível que ela tenha aromas bons e sabor agradável. O mais incrível é que devido a limitação produtiva das vinícolas dos Vales da Uva Goethe praticamente nenhum desses já provou o vinho. (lembrando que por confusão histórica os poucos vinhos Goethe da Serra Gaúcha são produzidos com a variedade Casca-dura, que não é a Goethe!)
Aí depois desse papo todo nos perguntamos por que algumas pessoas do setor vinícola brasileiro são tão rudes com o vinho Goethe; chegando ao ponto de tentar proibir a elaboração de espumantes com essa uva.

Aí Maquiavel entrou na conversa pela boca de um dos ébrios apreciadores, com sua famosa citação de que homens ofendem por ódio ou por medo.

Será que a pequena Progoethe causa medo a alguns concorrentes muito maiores?
Seria tanto a ponto de gerar ódio de uma simples uva pouco produtiva de maturação difícil e que a mais de um século alegra as mesas urussanguenses com um vinho agradável?

Bem, é só uma teoria baseada em idéias de Maquiavel, mas gera um pensamento que nos leva a cada vez lutar mais para ampliar nosso lugar ao sol amadurecendo as idéias do consumidor sobre um vinho que pra ele é novidade, mas por aqui já é tradição.

Salute!

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Underground e mainstream no mundo do vinho

Quase todos os tipos de arte têm correntes mais próximas do grande público, chamadas de “mainstream” e correntes menos famosas e populares, denominadas de “underground”; não poderia ser diferente na enologia, que talvez seja a mais científica das artes.
O mainstream na música abrange principalmente o pop e alguns gêneros pouco agressivos que utilizam linguagem popular (rap, sertanejo, pagode, pop rock). Vou citar as duas correntes mainstream que eu considero mais fortes na enologia.
Primeiramente os produtos doces, que são feitos simplesmente para serem bebidos (seriam o sertanejo universitário do vinho?); vão desde os doces sem escrúpulos, simplesmente doces e nada a mais pra apresentar até os doces mais elaborados, que são um bom produto, aromas agradáveis, sabores equilibrados e para facilitar a descida na garganta são doces (como aquelas músicas “top 10 do FM” que não saem da cabeça).
A segunda corrente mainstream do mundo do vinho são os tintos encorpados, cheios de cor, corpo intenso, aroma de frutas vermelhas e outras duzentas notas vindas do “estágio em madeira” (haja barril nesse mundo). São os vinhos da moda, principalmente para quem não toma suave. Tem uma legião de fãs incondicionais que fazem esse vinho estar em todos os pontos de venda. São vinhos que permitem ótimos comentários a seu respeito e além de apreciadores que realmente são seus fãs tem milhares de outros que o bebem porque é “vinho de quem entende”, assim como quem escuta Djavan mesmo sem entender o sentido da música, só pra dizer que é culto.
E o underground enológico? Existe?
Cada vez mais raro, apresenta-se em vinhos tintos de pouca cor; embora possam ter ótimo aroma e paladar inquestionável, não atraem ninguém com sua falta de presença visual.
Os brancos envelhecidos, alguém ainda lembra deles? Perdem campo para os jovens amarelos dourados frutados e translúcidos, mais baratos e atraentes.
Variedades exóticas, não brinca, o negócio é usar as mesmas de sempre, variedade boa é variedade que já vende bem, pra aparecer uma nova somente a custa de muito marketing (tipo assim, ir no Faustão deve ajudar).
No Brasil também temos uma corrente Underground tipicamente nossa: Os vinhos de americanas e híbridas elaborados com cuidado e tecnologia, buscando o melhor da expressão varietal dessas uvas, que atualmente são abominadas por quase todos. O normal é usar essas uvas pra fazer vinhos doces para abastecer a maior ala do mainstream enológico nacional, a do sertanejo universitário, digo, a dos vinhos doces; mas, um outro tipo de arte vem surgindo destas e talvez um dia ela não esteja no mainstream?

terça-feira, 9 de agosto de 2011

10 passos para o enosucesso na sua roda de amigos!

1. Decore o nome de 5 vinhos bem pontuados por 3 jurados internacionais, suas uvas e o nome do enólogo.
2. Arranje algum amigo estrangeiro, natural de algum país produtor de vinho, mas que seja bem bairrista, decore o discurso dele (de preferência francês ou argentino, são mais enfáticos).
3. Trate com desprezo coquetéis(drinks) que levam vinho, bebidas refrescantes, comidas e bebidas doces (menos  portos e sauternes!) e diga que os vinhos mais leves são para principiantes, que não tem o paladar habituado aos grandes vinho (essa última parece uma asneira, mas é muito pertinente)
4. Escolha algum produto popular que todo mundo faz piada e desmoralize escandalosamente tudo que é produzido perto dele (esta é a deixa do Sangue de Boi).
5. Mantenha um ar superior quando alguém falar em vinhos baratos, faça de conta que nunca sequer olhou para eles.
6. Para os amigos desinformados qualquer nota de newsletter de vinícola ou importadora que vem toda semana no e-mail vira um convite VIP.
7. Procure na internet um vinho caro que alguém já classificou mal, aí você será promovido ao patamar de crítico, pois você definitivamente não bebe rótulos. E se alguém pesquisar vai ver que sua opinião tem apoiadores.
8. Sempre que possível diga que o vinho harmonizaria melhor se estivesse a uma temperatura de 1ºC mais alta do que está.
9. Ao chegar nos eventos já diga que está atacado da rinite alérgica, assim não terá obrigação de identificar aromas. Mesmo atacado da rinite encontre os aromas mais exdrúxulos possíveis.
10. Quando for a um restaurante concorde com o sommelier, elogie o excelente trabalho dele e decore tudo que ele lhe disser.

Pronto, agora é só comprar sua adega climatizada para 20 garrafas, suas 12 taças de cristal, não perder nenhuma boca livre de vinícola ou importadora e sempre decorar uns nomezinhos mais difíceis para impressionar a turma. Se for cuidadoso e não der "balão" pode até montar um blog.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

E se Lula fosse um vinho?

Tava meio viajando e eis que surge um tema para o blog....

comparar hipoteticamente políticos com vinhos.....

Se Lula fosse um vinho acho que poderia se comparar a um Pinot Noir da Borgonha (assim em português mesmo), que já foi áspero, mas com o tempo amaciou (com a experiencia ficou liso), hoje harmoniza bem com a comida (sempre da jeito nas alianças político partidárias). Algum possível defeito não é percebido por apreciadores leigos, pois sua fama direciona os sentidos somente para as características boas; se alguém fala sobre seus defeitos é um enochato (ou um defensor de pseudo oligarquias).

José Serra seria um Cabernet Sauvignon chileno, um vinho maduro mas ainda áspero (convicto de certos ideais) encorpado, amadeirado e com aromas bem salientes (dinâmico e com propostas claras). Para alguns a perfeição em forma de vinho (ou candidato), para a maioria áspero e muito forte (apresenta idéias nem sempre bem vistas pelo povo)

Fernado Henrique Cardoso seria um espumante brut Chardonnay da Serra Gaúcha, safra 1999, foi um marco histórico, permaneceu ótimo durante anos, hoje já passou seu tempo, é apenas uma referência.

Marina da Silva é um espumante Lorena Orgânico, uma grande inovação, porém traz medo a cadeia produtiva, pois será a viticultura ecológica viável? Além de ser um espumante de uma uva híbrida, diferente, assim como uma mulher acreana que vira ícone da política nacional. Todos admiram, mas poucos compram.

Collor é o Liebfraunmilch (é assim que se escreve?) foi um grande vinho, famoso, vendeu muito e de repente todos se voltam contra ele e passa a ser o vilão de seu mundo. Caiu em desgraça -  o vinho pela falta de padrão e collor por uma elba. O alemão da garrafa azul ainda vende muito e Collor ainda pede (e recebe) votos. Fora que muita gente que tomou litros do lieb nega até hoje, igualzinho a muitos eleitores do Collor em 89.


Agora falta a Dilma....
Dilma é um bourgogne, daqueles que os argentinos fabricam e vendem em postos de gasolina e bolichos em geral. Não é pinot noir, nem vem da frança, é um vinho tinto que não aparenta defeitos graves, porém não tem personalidade, além de apresentar um rótulo bastante suspeito, tentando enganar a grande maioria leiga que vai comprá-lo pensando que é igual um borgonha francês (por  (co)incidencia o vinho do Lula....)

Fim do ócio criativo...... e vc vai beber o que na eleição?

Vitis Azambuja

Vitis Azambuja
Uma panorâmica de Azambuja, saudoso bucólico e nostálgico recanto vitícola...